A busca de uma perfeição imperfeita

Vivemos numa época de extrema exigência. Exigência em relação aos outros, ao mundo, ao trabalho, ao amor, à família e até em relação a nós próprios. De igual modo, somos alvo dessa mesma exigência vinda de todos estes locais e de todas estas relações ou, pelo menos, assim o sentimos. Temos de ser bons alunos, profissionais, amigos, namorados, filhos e pais e por aí em diante. Paralelamente, também temos que o conseguir fazer com um sorriso e, de preferência, com um aspeto físico “bonito” ou, melhor dizendo, que se enquadre dentro de determinados padrões sociais. No meio disto, cometemos erros terríveis ao compararmo-nos com determinadas personalidades que conhecemos dos filmes ou, mais recentemente, das redes sociais. Olhamos algo dito perfeito como uma coisa que também gostaríamos de alcançar, sem nos apercebermos, muitas vezes, de como esse perfeito pode ser muito imperfeito. Imperfeito na forma como é vivido e alcançado e que muito tem vindo a público trazido por algumas personalidades que nos têm alertado para o impacto na saúde mental. 

Algumas destas tentativas rumo à perfeição tocam muitas vezes as perturbações psicológicas, algumas com consequências muito graves, como é o caso das perturbações alimentares. A busca de uma perfeição imperfeita leva-nos muitas vezes a agredir o nosso próprio corpo, de formas distintas, privando-o dos seus mecanismos de subsistência e privando-nos a nós mesmos de retirar o máximo partido físico, cognitivo e emocional de um corpo saudável. 

Muitas vezes, esta necessidade de perfeição que o mundo nos impõe leva-nos a transformar uma ideia numa obsessão, entrando num caminho solitário e escondido, que termina em alguns casos num hospital. 

É, por isso, importante desconstruir esta ideia de perfeição, aliviar a pressão que sentimos ao observar o suposto “sucesso” dos outros, a procurar uma identidade própria sem tentar seguir modelos disruptivos, a compreender a nossa individualidade e a aceitar a nossa diferença. Vale a pena recordar que é na imperfeição que somos verdadeiramente amados. O outro ama-nos e nós amamos o outro na imperfeição. Logo, não precisamos de lutar tanto por uma perfeição irreal, na esperança de que aí sejamos amados. O amor é mais descomplicado que isso e existe nas coisas simples, na imperfeição ou no erro. Por vezes é só deixarmo-nos amar.

Doutora Catarina Lucas, Psicologia Clínica e Desenvolvimento.