A comunicação de crise em Saúde Pública: o papel dos meios de comunicação

A pandemia veio trazer à arena das sociedades o dilema sobre o qual os investigadores da comunicação em saúde (CS) se debruçam diariamente: sejam em planos de intervenção para reduzir risco em situação epidémica ou pandémica ou, numa esfera mais caseira, na política de promoção da saúde e prevenção da doença (PSPD).

O século XX deu-nos grandes teorias de CS  que atravessaram de forma corajosa e avassaladora os mundos encriptados das ciências da saúde. A medicina, a psicologia e a enfermagem passaram a ser uma realidade interdisciplinar da CS: a maior e melhor ferramenta da Saúde Pública (SP). Pensarmos que todos têm competências para tal, é o erro n.º 1. O erro n.º 2, e o maior deles, é tomar esta área científica como um arremesso de instrumentalização política ou autopromoção. O que se aprendeu no terreno com a doença por vírus Ébola, nos PALOP (destaco toda a Guiné Bissau) foi  literalmente esquecido com a SARS-CoV-2. É obrigatório conhecer as idiossincrasias vulneráveis regionais deste país, sem acesso à Internet, satélite, televisão por cabo, SMS, jornais ou o que queiram. Os maiores responsáveis pela má comunicação são os agentes políticos que comunicam para se ouvirem. CS é um conceito que visa a PSPD com recurso a um conjunto de ferramentas, como a gestão da comunicação.

É necessário investigar para comunicar: a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda a investigação. Quando é evidente o uso de melhores práticas, com base em princípios aceites, a OMS faz uma “declaração de melhor prática”. A força da recomendação – firme ou condicional – é determinada por considerações sobre danos, benefícios, viabilidade, valores, preferências, recursos e equidade envolvidas.

Numa crise em SP, é determinante que se articulem os três pilares descritos no diagrama abaixo na gestão da crise e que se restabeleça a confiança entre as pessoas (stakeholders). Estes pilares ditam recomendações/declarações sobre intervenções que a evidência indica serem as melhores. 

O Pilar A é a recomendação forte! Construir a confiança e engajar as populações afetadas. A transparência deve ser em tempo real e de fácil compreensão. Acabar com incertezas: riscos, situações e intervenções perante casos de morte que se registam numa crise.  Em Portugal, falaram todos e tantos e disseram tudo, menos a verdade. É urgente comunicar com as populações afetadas, criar um link e estabelecer a autoeficácia, com recurso à capacitação de mensagens, sem ruído de publicidade, com divulgação em todas as plataformas, métodos e canais, que atinjam populações-alvo mais vulneráveis. Os meios de comunicação social (MCS) falharam: deveriam ajudar a CONSTRUIR APENAS CONFIANÇA. Fomentaram a iliteracia e o medo. Procuraram players para dar “respostas às suas perguntas”, sem evidência científica. Comunicar o conhecido e o desconhecido no momento certo, ao fim de cada dia. Usar as Rádios para os maiores. E os meios digitais para os jovens: os maiores embaixadores que foram desrespeitados na sua plenitude e excelência. Eles são o futuro e carregam a evolução.

pilar B  integra a comunicação de risco em situação de emergência em SP nos sistemas de resposta. O ruído nas mensagens (repetição)  “maisdomesmo.pt”, quando as pessoas apenas devem recolher-se e manter os cuidados de higiene recomendados. Governança e liderança exigem-se mas atropelaram-se e os meios veicularam essa descomunicação.

pilar C deve encaminhar-nos para um manual de emergência, simples para as populações-alvo, com planeamento estratégico implicando: avaliação de necessidades, definição de objetivos, implementação de intervenções específicas e  respetiva monitorização/avaliação, mobilização e sensibilização da PA e influenciar comportamentos antes, durante e depois da emergência de SP. Os MCS, perante um fracasso nas mensagens, devem reposicionar-se para crises futuras , sem aviso prévio. Porque essa é a única certeza da crise: a  imprevisibilidade. 


Isabel Santiago
Professora Convidada e Investigadora em Comunicação em Saúde
Instituto de Medicina Preventiva e Saúde Pública
Faculdade de Medicina da UL