A importância da Canábis Medicinal enquanto opção

A utilização da Cannabis sativa e dos seus derivados para fins medicinais é conhecida e reconhecida há muitos anos. No entanto, o estudo das suas propriedades terapêuticas, dos recetores canabinoides (CB1 e CB2), das enzimas envolvidas no seu metabolismo e a descoberta dos canabinoides endógenos são bem mais recentes. 

Inúmeros estudos sobre o isolamento dos canabinoides, das suas estruturas, da estereoquímica, da síntese, do metabolismo, da farmacologia e dos seus efeitos fisiológicos têm permitido identificar os recetores canabinoides específicos, localizados no sistema nervoso central (CB1), e no sistema periférico (CB2), além da identificação dos canabinoides endógenos. Consequentemente, tornou-se possível entender de alguma forma o mecanismo de ação dos canabinoides e a respetiva relação estrutura-atividade. 

Os derivados da planta da canábis passaram a constituir-se em muitos países como uma opção farmacológica na estimulação do apetite e no tratamento da dor crónica. Existem hoje várias evidências que demonstram o interesse clínico dos canabinoides e as suas aplicações terapêuticas. 

Portugal deu um passo muito importante na legalização da canábis para fins medicinais: a aprovação da canábis para fins medicinais a 15 de junho de 2018 na Assembleia da República, juntamente com a sua regulamentação. No entanto, a lei só permite a prescrição da canábis medicinal em segunda e terceira linha. A opção de o doente poder ver os seus sintomas atenuados com a canábis medicinal terá de ser sempre após os fármacos convencionais não terem surtido o efeito pretendido ou terem causado reações adversas durante o tratamento, não se tratando de facto de uma verdadeira “opção”. 

Embora a autorização de colocação no mercado (ACM) de uma preparação ou substância à base de canábis não careça de ensaios clínicos como o exigido na Autorização de Introdução no Mercado (AIM) de medicamentos convencionais, mais ensaios clínicos, estudos, revisões e meta-análises serão necessárias para demonstrar a eficácia através de dados como dosagens máximas e mínimas, formas de administração, tipos de canabinoides e suas quantidades, evidenciadas em patologias como ansiedade, autismo, dor crónica e cancro, entre outras. Só assim os tratamentos serão plenamente eficazes e os clínicos poderão usá-los nos seus doentes como a primeira “opção”.

 

Carla Sofia Dias – Presidente do Observatório Português de Canábis Medicinal