Nanomedicamentos: o Futuro da Terapia Personalizada
A Nanomedicina já não está restringida a um conceito académico. Atualmente, perfila-se como uma das mais promissoras fronteiras da ciência, inaugurando uma nova era de terapias de precisão, moldadas à singularidade de cada doente.
Este ramo da Nanotecnologia aplicada à Saúde está a redefinir, de forma profunda, os paradigmas terapêuticos tradicionais, ao permitir intervenções extraordinariamente específicas e personalizadas. Atualmente, já se encontram disponíveis no mercado dezenas de exemplos de nanomedicamentos, comprovando o seu impacto crescente na prática clínica e consolidando o papel da Nanomedicina como um pilar da terapêutica moderna.
Uma das mais relevantes inovações consiste no desenvolvimento de nanossistemas de veiculação de fármacos. Estes nanossistemas são projetados para acumular seletivamente o(s) fármaco(s) em tecidos-alvo. Um dos exemplos mais conhecidos e antigos envolve a encapsulação da doxorrubicina em lipossomas, alterando a sua farmacocinética e biodistribuição, conduzindo a uma maior concentração na área tumoral, com uma consequente melhoria da eficácia terapêutica e uma redução da cardiotoxicidade do fármaco.
Importa também sublinhar que estes nanossistemas têm, igualmente, a capacidade de transpor barreiras biológicas críticas, como é o caso da barreira hematoencefálica. Estima-se que mais de 98% das moléculas com potencial terapêutico para o sistema nervoso central não consigam atravessar essa barreira. Um estudo recente dedicado ao tratamento do glioblastoma multiforme reportou uma elevada penetração no tecido cerebral de nanopartículas lipídicas com siRNA, promovendo uma regressão tumoral superior a 60% em modelos pré-clínicos.
Para além da vetorização, a incorporação de nanomateriais inteligentes sensíveis a estímulos internos ou externos (temperatura, campos magnéticos, luz, etc.) permite, ainda, uma libertação controlada do fármaco.
Além disso, na área dos nanomateriais inteligentes sensíveis a estímulos externos, encontramos, por exemplo, as nanopartículas de ouro. O nosso grupo, investigadores do iMed.ULisboa e do IBEB da Universidade de Lisboa, tem vindo a associar a fototerapia com nanopartículas de ouro na eliminação seletiva de tumores localizados, tais como o cancro de mama, tiroide, próstata, melanoma, entre muitos outros. Em ensaios in vitro, após incubação de 4 horas e irradiação com laser durante 5 minutos, as nanopartículas de ouro reduziram significativamente a viabilidade celular de várias linhas celulares tumorais (mama (MCF-7), cólon (HCT-116) e melanoma (A375)), sem afetar as células saudáveis (células da pele saudáveis (HaCat)). Estas nanopartículas de ouro combinadas com laser revelaram, ainda, resultados altamente promissores em modelos tumorais animais, com uma redução de 80% do volume do tumor após um único tratamento.
Outro aspeto disruptivo da Nanomedicina abrange os sistemas combinados de diagnóstico e terapia. Um exemplo destes nanossistemas combinados inclui as nanopartículas de ferro e a sua visualização por ressonância magnética. Um outro exemplo paradigmático refere-se novamente às nanopartículas de ouro para fototerapia e imagiologia, que permite, simultaneamente, a visualização e destruição seletiva de células tumorais, reduzindo procedimentos invasivos e otimizando os tratamentos, com uma clara redução dos custos a nível hospitalar.
E, a propósito de custos, os benefícios da adoção dos nanomedicamentos são igualmente assinaláveis. Na área oncológica, estima-se que a sua implementação possa reduzir até 25% os custos totais com os cuidados de saúde, não apenas pela menor necessidade de hospitalização, mas também pelos ganhos de produtividade e qualidade de vida dos doentes.
Assim, a Nanomedicina inaugura um novo paradigma na prática clínica — um paradigma de elevada precisão, segurança e eficácia.
O futuro vislumbra-se dominado por estes nanossistemas, capazes de diagnosticar em tempo real e de desencadear respostas terapêuticas eficazes, tornando a medicina personalizada não apenas uma promessa, mas sim uma regra.
Professora Doutora Ana Catarina Reis
Professora na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, Investigadora no iMed.ULisboa e colaboradora no IBEB/FCUL


