A Influência da Mente na Resposta Terapêutica: Efeito Placebo VS. Nocebo
A origem do termo “placebo” remonta à literatura médica do século XVIII, mas é a partir da Segunda Guerra Mundial que este fenómeno suscita maior interesse e curiosidade por parte da comunidade científica. Neste cenário, perante uma crise de reduzida disponibilidade de morfina nas enfermarias, Dr. Henry Beecher começou a administrar aos soldados feridos uma solução salina que descrevia como “forte analgésico”, verificando que muitos destes experienciavam uma melhoria significativa das suas queixas.
A definição de placebo foi introduzida no Gould’s Medical Dictionary como sendo “um medicamento inócuo” e, em 1955, também Dr. Beecher, no seu paper The powerful placebo, estimou em 32% a eficácia do efeito placebo no alívio da dor, inspirando a posterior inclusão de grupos placebo nos estudos controlados dos diversos fármacos. Por outro lado, o conceito “nocebo” foi cunhado por Walter Kennedy, em 1961, a propósito das taxas de efeitos adversos e descontinuação de tratamento objetivadas nos grupos placebo, variando entre 19 e 26%.
Placebo e nocebo são, atualmente, considerados fenómenos biológicos, psicológicos, sociais e culturais, que modificam o resultado global do tratamento, deixando um convite à compreensão do papel do próprio contexto no outcome terapêutico. Numa perspetiva tecnicamente mais simplista, o substrato neurobiológico relaciona-se, no caso de ambos os fenómenos, em “sentidos opostos”, com modificações na atividade dos sistemas de recompensa, do sistema opióide endógeno, da colecistoquinina e do próprio córtex pré-frontal. Já na esfera dos mecanismos psicológicos centrais também subjacentes, estas respostas estão associadas a diferentes tipos de sinais/aprendizagem (índices de condicionamento, símbolos de comunicação e ícones de observação) e à sua interação com a personalidade dos próprios doentes, admitindo-se que sugestões verbais, expectativas por condicionamento e a presença/ausência de traços de otimismo/pessimismo, novelty seeking ou harm avoidance podem resultar em crenças tendencialmente “farmacofílicas” ou “farmacofóbicas”.
Segundo a American Psychological Association, o efeito placebo – “eu agradarei” – corresponde a uma resposta clinicamente significativa a uma substância inerte, medicamento ativo ou tratamento não específico, derivada das expectativas e crenças do recetor em relação à intervenção, contribuindo para a sua eficácia terapêutica. Em contraste, nocebo – “eu farei mal” – e o seu efeito remetem-nos para a possibilidade das expectativas negativas originarem um resultado terapêutico desfavorável.
Assim, estes conceitos revolucionaram quer o rigor da investigação científica, quer a própria prática clínica, ao evidenciar que a eficácia de um tratamento resulta da interação entre o efeito farmacodinâmico específico e a resposta placebo/nocebo. Neste âmbito, pretendemos otimizar o efeito placebo e reduzir o efeito nocebo por meio de técnicas como a Psicofarmacoterapia Criativa, que pressupõe uma abordagem sinérgica entre a farmacologia e a psicologia, fundamentada na personalização e modulação das expectativas do próprio doente, com vista a atingir a resposta clínica mais favorável possível.
Dra. Maria João Amaral
Médica Psiquiatra – IFE Psiquiatria, ULS Loures-Odivelas
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