A Socialização como um mecanismo de manutenção do Raciocínio ao longo da vida

As pessoas mais velhas são uma mais-valia para a sociedade. Muitas vezes, relacionamos as alterações cognitivas associadas ao envelhecimento a aspetos negativos. No entanto, há capacidades cognitivas que não só estão preservadas no adulto mais velho, como também melhoram com a idade. Estas são as capacidades assentes no conhecimento adquirido ao longo da vida, como a regulação emocional, a memória autobiográfica ou o conhecimento semântico. Para apoiarmos os mais velhos de modo a preservarem a sua independência e qualidade de vida, é necessário percebermos também quais os défices associados ao envelhecimento, os seus impactos e como os podemos mitigar.

A capacidade de raciocínio é uma das funções cognitivas que diminui com o envelhecimento e que pode ter um impacto significativo no dia a dia. O raciocínio é o processo mental que permite organizar ideias, fazer conexões entre informações e chegar a conclusões. Este processo está associado a vários subprocessos cognitivos assentes em funções executivas que dependem do córtex pré-frontal, como a memória de trabalho, o controlo inibitório e a flexibilidade cognitiva. A diminuição do volume de matéria cinzenta e da integridade da matéria branca do córtex pré-frontal são as alterações estruturais que aparecem mais cedo no envelhecimento. No entanto, algumas pessoas mais velhas conseguem manter uma boa capacidade cognitiva, mesmo na presença de alterações estruturais. Estas pessoas mostram um aumento da atividade no córtex pré-frontal durante o desempenho de tarefas cognitivas em comparação com jovens adultos. Pensa-se que este aumento da atividade frontal pode compensar os défices causados pelas perdas estruturais, mantendo a sua função.

Desta forma, sabemos que algumas pessoas conseguem manter uma cognição funcional mesmo na presença de alterações que interferem com o funcionamento cerebral. Esta capacidade chama-se reserva cognitiva e permite manter a função na presença de danos cerebrais. Uma maior reserva cognitiva está associada a estilos de vida saudáveis, incluindo a manutenção da atividade física e cognitiva no dia a dia.

Um aspeto dos estilos de vida que sobressai como muito importante para uma cognição saudável é a socialização. As funções cognitivas que dependem do córtex pré-frontal respondem ao treino cognitivo: quanto mais as usamos, mais eficientes se tornam. A socialização é uma atividade cognitiva complexa que envolve todas estas funções. Ativamos a memória de trabalho para nos lembrarmos do que vamos dizer enquanto somos interrompidos. Ativamos o nosso controlo inibitório para deixarmos a outra pessoa falar. Ativamos a nossa flexibilidade mental quando percebemos que o grupo já mudou de conversa. Assim, a promoção de uma vida social diversificada é um bom remédio para a manutenção de um raciocínio saudável, mesmo nas idades mais avançadas.

A capacidade de raciocínio é cada vez mais relevante nas nossas sociedades, onde a abundância de informação nem sempre simplifica a tomada de decisão. As estratégias que consigam manter esta capacidade ao longo da vida poderão ter um impacto muito significativo.

 

Maria Ribeiro

 

Neurocientista investigadora no TBIO (Center for Translational Health and Medical Biotechnology Research), Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico do Porto